segunda-feira, 24 de setembro de 2007

“UM RECADO PARA BABY BLUES” [1]


Por: ISAAC RONALTTI






Qual o melhor nome para classificar o “não visto”, o “não ouvido”, aquilo que passou de maneira fugaz ao decorrer de mais de duas décadas?

Assim aconteceu com grande parte da cultura local - curiosamente nestes poucos mais de 20 anos que esta terra é conhecida como Estado de Rondônia -, ainda mais, quando esta cultura se tratava de movimentos jovens que, costumeiramente, eram encarados como surto de uma juventude sem princípios, pagã, libertina e promíscua - semelhantemente como Bloom[2] classificara a juventude americana no final da década de 80.


Através dos movimentos jovens - em especial o Movimento das bandas de Rock -, Porto Velho, assim como o Estado de Rondônia, não percebeu as diversas manifestações que se processavam entre estas tribos urbanas, até porque estas estavam na condição de marginais, contudo, pouco a pouco este movimento vivenciou um processo de organização.

Grande parte destes movimentos tinham influências visíveis dos maneirismos da década de 70, bem como do Punk. Foi assim que o Rock tornou-se ferramenta de interferência sócio-politica de um bom número de jovens deste Estado.

Diferentemente dos processos de aculturação e cópia dos modismos influenciado pela mídia - na década de 80 devido à expansão da televisão e na década de 90 devido o maior acesso aos computadores e a internet -, o Rock, este ritmo estrangeiro, foi usado como amplificador das angustias, problemáticas e inseguranças da juventude rondoniense.

Esquecidos pelo tempo, bandas e músicas se somaram aos perdidos, lembrados apenas por alguns dos saudosos guerreiros que tiveram a oportunidade de presenciar, assistir e ouvir, as mais diversas apresentações de bandas nestes muitos anos.

As bandas, em sua maioria, nasceram de influências da música Punk - assim como o movimento de bandas de Rock em Brasília nos anos 80, que deu como fruto bandas como: Plebe Rude, Legião Urbana, Capital Inicial, entre outras -, outras ainda foram muito influenciadas pelo psicodelismo e o virtuosismo de bandas como The Doors e Pink Floyd: é o caso da banda Nômades.

Essas manifestações não se restringem a Porto Velho, basta observar os trabalhos de bandas como “Os Químicos” - da cidade de Ariquemes -, que em músicas como “Força Militar” tratam de criticas a obrigatoriedade do serviço militar, tema muito abordado pelos movimentos punks.

A banda Merda Seca na música “Deus = o capital”, traça um paralelo entre acumulação, usurpação monetária do povo pela igreja (sejam protestantes ou não), crítica a sociedade ocidental (cristã, puritana e capitalista), e ainda faz uma crítica incisiva a idéia de “deus” que mantemos.

“Teatro no Vinil” é uma música da banda Detroid - extinta banda portovelhense liderada pelo lendário Jony “o desordeiro”: a música trata dos conflitos entre tribos urbanas - Punks e Headbengers -, é uma narrativa de umas das lendas urbanas de Porto Velho (ou de um dos mais interessantes factóides locais): a história da Headbenger Sam, segundo as falácias locais, esta última teria manipulado punks e headbengers, inclusive promovendo a pacificação temporária entre estas tribos - conhecidas por não conviverem muito bem. O episódio termina com Sam - após ser desmoralizada entre Punks e Headbengers - incendiando seu apartamento e colocando fogo em seu próprio corpo. Sam não morreu, contudo, ninguém sabe do seu paradeiro, comenta-se que a mesma teria se mudado para o Amapá.

A banda Orbe, uma das bandas mais lembradas da juventude que freqüentava a extinta Oficina do Rock[3], transmitia em suas músicas toda a geração que foi influenciada pelo mal estar, presente na juventude dos Estados Unidos da América, evidente no final da década de 80 - identificado por Bloom, e liderado pelas bandas Grunge, que entre seus principais precursores estão bandas como Nirvana[4], Melvins e Pearl Jam.

Ainda sobre as influências do Grunge e toda acidez do Punk, a banda Rádio ao Vivo - vindo a existir inicialmente como banda Neófitos -, sintetizou na música “Mansão do Arão” uma boa quantidade de niilismo e desmazelo. A história do morador de rua Arão é a metáfora de um ataque a diversos valores de nossa sociedade: escola, status quo, acumulação, puritanismo, comodismo e indiferença. A música nasce a partir de uma situação curiosa: Arão após ser perguntado sobre onde ficava sua casa, apontou para a praça e disse: “olha ali a minha mansão”. A música ainda aborda em seu conteúdo diferenças sociais, tribos urbanas e a juventude marginalizada que, até então, tinha como principal ponto de encontro em Porto Velho, a Praça Aluízio Ferreira - conhecida popularmente como a “Praça do Half” [5].

A Coveiros é, sem dúvida alguma, uma das bandas mais conhecidas do Estado de Rondônia. A banda possui um bom número de músicas que marcaram Porto Velho. Considero “Medo e Esperança” uma das melhores músicas da banda. A música exprime uma turbulenta afronta ao ser humano acomodado, é digna de ser classificada como a síntese de uma re-volta. A música é agressiva, mas muito profunda - envolta pela guitarra mais do que pesada de Hélio, a garganta destruidora de Giovani, a bateria esquizofrênica do Del e o Baixo do Yuri-, lança uma sensação de desespero, algo próximo da sensação que qualquer um teria caso estivesse na Faixa de Gaza vestido com o uniforme do Hesbolá, e ainda, sendo obrigado a ter que segurar uma bandeira de Israel. Dá para imaginar?


Já que falamos de Israel e da Faixa de Gaza, é bom lembrar que as músicas das bandas locais, costumeiramente, se responsabilizaram por traduzir as emoções e as opiniões da juventude local a respeito de temas dos mais complexos. Foi assim com a banda DHC, na música Oriente Médio: a música expõe o ambiente de guerras vivido no inicio da década de 90, em especial, os conflitos da Guerra do Golfo e os ataques constantes a Beirute. As músicas da D.H.C já tratavam de temas super atuais como ambientalismo e críticas a proliferação da energia nuclear.


Interpretada pela DHC, a música “Porto Velho Caos” curiosamente foi composta por um grupo de amigos de Ariquemes e já destrinchava, em notas e versos, toda a acidez e contradições sociais advindas como soldo da atividade garimpeira em Porto Velho.
A banda Scrooff, sem abrir mão da melodia, conseguiu juntar em uma boa música uma ótima crítica: “Estado-Razão” mostra que é possível sim, juntar melodias a críticas sociais recheadas de argumentos punks.

Por fim, a banda vilhenense - Enmou -, na música “Vou matar cow-boy”, identifica de maneira singular as diferenças e contradições presentes num estado construído a partir de uma miscelânea de culturas: o confronto entre o urbano marginalizado - punk -, e o modismo rural configurado como o filho snobe do grande proprietário rural - no caso o cow-boy -, mostram as diferenças e os contrastes de um estado em formação, além das diferenças entre o urbano e o rural, este último sendo a corrente majoritária local.

Enfim, como negar as diversas influências do movimento rock em Rondônia, ao passo que, este movimento foi catalisador de diversas características que colaboraram para o que somos hoje? Este mesmo movimento enfrentou o fim da ditadura, quando, para promover qualquer evento, a banda Nômades era obrigada a enviar cópias das músicas para o Departamento Federal de Censura em Rondônia, para, após uma análise do teor das letras, conseguir liberação para expor suas músicas nos eventos.

A banda Nômades ainda encabeçou o “Projeto Espaço Aberto” - projeto que acontecia quinzenalmente na Praça das Três caixas d’águas ao decorrer do ano de 1987 -, conseguindo agregar em um evento 10.000 pessoas. Era a movimentação de figuras e bandas que possibilitavam as manifestações de uma cena.

O Rock, ritmo estadunidense, se perdia nas notas de diversas bandas, e estas se tornavam original ao passo que falavam de seu cotidiano, mas sem apartar das questões do mundo por aí à fora. Isso é visível seja num evento da banda Nômades na escadaria da Unir Centro, em 1987 - alguns acreditam que o primeiro evento realizado no local-, um protesto contra os diversos problemas de fornecimento de energia elétrica na cidade de Porto Velho, o que acabou por dar nome ao evento de “Faz escuro, mas eu canto”. Ou ainda, nos versos de protesto da D.H.C que, de certa forma, inseriam os jovens que ouviam a banda em debates como Guerra, Imperialismo, não-submissão e autonomia.

Versos de protesto contra uma “democracia onde o que vale é obrigar” como dizia um trecho da música “Força Militar” da banda “Os Químicos”. Os mesmos protestos vertidos em mensagens metafóricas da música “Mansão do Arão” da banda Rádio ao Vivo - versos repletos de anarquismo, repletos do “do it yourself”, ou o faça você mesmo, versos figurantes do caos que como teoria possuem como fim o mesmo lugar: um eterno retorno onde a destruição é uma constante criação.

E quem negaria que “Deus = o capital”, da banda Merda Seca, não é uma feliz análise sociológica, uma música que passeia pelo materialismo-histórico-dialético de Marx e faz ponte com a análise de Max Weber sobre o protestantismo como o cerne fundamental do espírito capitalista.
Isso é só um pouco do que construímos em mais de duas décadas de Rock em Rondônia, e muito não foi falado, não foi analisado, não foi visto nem ouvido.

Construímos algo original, regional, que não é produto da aculturação, mas sim, de uma antropofagia cultural - como a de Oswald de Andrade[6] -, onde cultura é vista não como algo que vem de fora, mas que é produzido a partir da prática e análise do cotidiano em que vivemos inter-agindo, inter-ferindo.


[1] - “Recado para baby blues” é o título de uma música da banda Nômades, a primeira banda de rock a produzir música própria em Porto Velho. Escolhi esse nome para o artigo, pelo simples motivo do nome ser consoante com o objetivo principal desta publicação: a promoção e a divulgação de informações a respeito de bandas de Rock locais.
[2] BLOOM, Alan. “The Closing of the American Mind” - “O estreitamento da mentalidade Americana”: Bloom em sua publicação de 1988 alega que a cultura popular, em especial o Rock, causou atrofia do vigor e da inteligência da juventude americana. Entre outras considerações Bloom fala do declínio moral e intelectual, encara como única causa, o Rock; teme o espírito desafiador as autoridades que este ritmo implantou nos jovens a partir da década de 60. O livro é uma grande coleção de considerações preconceituosas, puritanas e autoritárias, bem ao estilo do Gentleman - as características do colonizador da “Nova Inglaterra”. Os pontos positivos estão na qualificação do Rock como movimento, e que, caracterizado como cultura popular, é ameaçador as bases das instituições intocáveis da terra: a igreja e o estado.
[3] Durante mais de 20 anos a Oficina do Rock foi o principal ponto de encontro do pessoal do Rock. Infelizmente (ou felizmente) a Oficina foi transformada em um estacionamento no início do ano de 2005.
[4] Bloom ainda foi motivo de inspiração para um dos principais clássicos do Nirvana: a música “In Bloom”.
[5] O Half foi recentemente destruído pela Prefeitura Municipal de Porto Velho por motivos de reestruturação e reforma da Praça. A Praça Aluízio Ferreira também era conhecida (ou ainda é... sei lá) como a “Maldita”.
[6] Um dos grandes nomes da Semana de Arte Moderna de 1922.

quinta-feira, 20 de setembro de 2007

Afinal, o que é e quem é o Beiradeiro? - na perspectiva de desenvolvimento de uma Identidade para o rondoniense

Por: Isaac Ronaltti



Até uns anos atrás, Beiradeiro era um xingamento local, se remetia a um deboche do homem pacato e humilde que mora na beira dos rios.A banda Quilomboclada gostava de definir Beiradeiros como os ribeirinhos e os “afro-indígenas”. Mas depois de muitas reflexões que fiz, confesso que as mesmas ainda incompletas, percebi que, o conceito de Beiradeiros para nós é algo muito mais denso, incutido de uma gama de significados, e o mais incrível, um dos poucos pontos que nos é comum não só em Porto Velho, mas em todo Estado de Rondônia.Nisso, construir um conceito que traduza em uma unidade a nossa diversidade, é passo fundamental para que, possamos definir e consolidar nossa identidade de portovelhenses, de rondonienses - como o Nettu mesmo falou: “cada cidade de Rondônia parece um universo paralelo”, haja visto que, como nos afirma Gramsci, um povo que não tem identidade, algo que os una, que os torne comum, é um povo sem memória, e um povo sem memória está mais suscetível a vir a ser dominado. Foi analisando nossa história, os ciclos econômicos que viveram nossa terra que, percebi um ponto em comum que nos une: nós: rondonienses e rondonianos somos todos Beiradeiros. Todos nós estamos à beira, nos desenvolvemos a beira, somos “marginais”, nascemos à beira dos rios, da ferrovia, da BR-364, portanto somos Beiradeiros. Assim, também são nossas cidades, principalmente Porto Velho que nascera a beira do Madeira, assim como as diversas cidades que se desenvolveram a beira da BR-364. Desenvolvemos-nos a beira, assim como fomos colocados à beira ao decorrer dos diversos ciclos econômicos. Para melhor ilustrar, transcreverei um trecho, do capítulo 21, do livro que estou escrevendo sobre a Cena Rock em Porto Velho, só atentando que, embora o livro trate de um apenas da representação local de um estilo musical, a Cultura Beiradeira não se resume a um estilo, a um tipo de música, é muito mais que isso:
“Beiradeiro é todo aquele que está a margem. Diria simplesmente que, o conceito de beiradeiros inclui todos os excluídos,sejam eles excluídos pelos ciclos econômicos, pela classe social, por etnia, cor e credo.O diferencial do beiradeiro é que ele não luta para incluir-se na lógica do dominante, ele volta-se para o que é seu, e passa a dar valor singular as suas peculiaridades, percebe finalmente, que ele - o Beiradeiro -; não precisa entrar nas correntes das águas dos outros, tendo que assumir a posição de remar contra ou a favor das marolas. Percebe, tão simplesmente que, pode conduzir o seu caminho, valorizando a margem, e decidindo para onde andar.Os Beiradeiros possuem os pés fincados na terra,e não entram nas águas simplesmente porque alguém diz que assim deve-se fazer,que assim caminha o progresso e o desenvolvimento.O Beiradeiro é, decididamente,e a afirmativa do alternativo”.Em termos mais específicos, a expressão cultural beiradeira é marginal:
“...pois sempre esteve a margem,sempre fomos o excêntrico,na maioria das vezes pouco valorizada, até pelo público local,que devido uma tradição típica herdada da colonização,tem o costume de valorizar e entender que se deva dar valor e crédito somente aquilo que vem dos grandes centros”.Este componente ideológico - a criação da idéia do Beiradeiros -, o Projeto não pode se desvincular ou esquecer, sob pena de tornar-se um Projeto vazio, ou pior, transformar-se em uma mera produtora de eventos.Por isso que acho reducionista demais tratar o Beiradeiro de Rondônia apenas como o afro-indígena, ou apenas o ribeirinho, até porque se tratássemos apenas dos negros - e não me venham com a aquela baboseira de chamar os negros de descendentes de escravos, afinal, nunca existiu um país chamado “Escravolândia”-; num estado como Rondônia já teríamos um bom número de contradições, haja vista que, o negro encontrado em Porto Velho é em sua maioria de origem caribenha, trazido para trabalhar na construção da EFMM - naturalmente de raiz africana, capturado e usado como mão-de-obra escrava nas colônias caribenhas, em especial, as colônias inglesas: que ainda são responsáveis por um traço singular do negro portovelhense - o protestantismo, um bom exemplo do que estou falando são os Shockness e os Johnson’s; Muito diferente do negro encontrado no Guaporé, que é remanescente quilombola, religiosamente, ainda está ligado fortemente aos cultos afros, mas tem traços fortes também do catolicismo, esse sincretismo religioso é responsável por uma das mais ricas manifestações culturais do baixo - Guaporé - a Festa do Divino; Como podemos ver, e é fato, há em Rondônia uma diversidade fora do comum, uma diversidade que, creio eu, pode ser resumida em uma unidade - o Beiradeiro.O povo acreano, é conhecido atualmente por sua identidade fortemente sedimentada. Mas isso não se construiu de uma hora para outra, é fruto de um trabalho político-ideológico de mais de 30 anos (não cabe no momento avaliar seus pontos positivos e negativos), um trabalho que envolveu os CEB’s - estruturado a partir da versão católica para o marxismo: a Teologia da Libertação; um trabalho que envolveu os sindicatos rurais, mas principalmente, a partir de um processo de apoderamento popular, onde fora valorizado a figura dos Povos da Floresta como ponto de unidade dentro da diversidade, o que seria futuramente sintetizado na idéia-conceito do “Florestão” - uma palavra que singularmente descreve o índio, o seringueiro, enfim, o povo acreano. Se bem lembrarmos, Gramsci nos advertia a respeito da importância da identidade como forma de defesa em relação ao dominador. Pois bem, da mesma forma, no Acre, a frase de Bernard Shaw usada na epígrafe é perfeitamente anexa à realidade vivida para a construção de um conceito que expresse a identidade de um povo, seria no caso “criar as circunstâncias que precisamos” para nos auto-afirmarmos. A partir de meados da década de 60, a questão fundiária, foi, sem dúvida, um dos piores problemas enfrentados pelo Estado recém criado do Acre: isso devido a ter se classificado o seringueiro como camponês - aqui percebemos a importância dos conceitos-, o fato é que a partir do início da regularização das terras embasadas no “Estatuto da Terra” - criado pela Lei 4.504, de 30-11-1964: decididamente, uma obra do regime militar que, de forma tirana, assumiu o poder no mesmo ano, e visava de certa forma “salvaguardar” a nação de possíveis distúrbios, haja vista que, em 1959, Cuba havia passado por um processo revolucionário popular, e acontecia de forma semelhante em toda América, um intenso movimento de Reforma Agrária (México, Bolívia), até como forma de acalmar as organizações camponesas que, ao momento, se articulavam a todo vapor - enfim, o Estatuto da Terra, desenvolvido visivelmente sem atentar para as peculiaridades do povo acreano, cometeu o equívoco de classificar o seringueiro como um camponês, como um agricultor, e como determinava o estatuto: o camponês teria direito apenas ao espaço de terra que era composto pela sua casa e sua lavoura, sendo delimitado um espaço de 90 hectares para cada um; o fato é que o seringueiro não se encaixava dentro do conceito de camponês, haja vista que, a manutenção de sua vida não estava no pequeno roçado que mantinha, e sim, nos varadouros de onde se tirava o leite da seringa, que naturalmente extrapolava a quantidade de hectares prescrita no Estatuto da Terra, dado que as seringueiras estão dispersas na mata. Nisso, o conceito de camponês, era altamente prejudicial para o seringueiro, pois sua atividade como agricultor poderia no máximo ser considerada uma atividade complementar, acessória, um proto-campesinato. A partir dos diversos embates e lutas políticas, o povo acreano percebeu que tanto para enfrentar problemas como anteriormente relatado, ou mesmo, para enfrentar os “paulistas” - pecuaristas que invadiram a região, derrubando matas e expulsando seringueiros de suas colocações na década de 70 -, precisar-se-ia fortificar os traços de identidades do seu povo.Semelhantemente aos acreanos, nós, rondonienses e rondonianos, por vivermos em um Estado que sempre fora usurpado, desvalorizado, lembrado apenas pelas diversas chacinas que mancham nosso chão de sangue, precisamos criar laços de unidade, fortificar e desenvolver nossos pontos em comum, desenvolver nossa identidade, até como forma de defesa, nisso, a idéia do Beiradeiros vem muito à calhar.Rondônia não é um novo nordeste por ter um grande número de nordestino compondo sua população. O interior de Rondônia também não pode ser encarado como um novo Paraná, ou um pedaço do Rio Grande do Sul, afinal, foi esta terra que alimentou, sem queixar-se, até os ingratos.Salientei alguns dos pontos básicos que configuram a idéia de um Projeto que, objetiva-se cultural, e que, ideologicamente tem por meta a promoção das manifestações culturais locais, as manifestações Beiradeiras.
Trecho do artigo:
“BEIRADEIROS: CONSIDERAÇÕES A RESPEITO DE UM FESTIVAL QUE SE TORNOU PROJETO E, DE UM PROJETO QUE AINDA SE LIMITA A UM FESTIVAL”.
Este artigo pode ser encontrado, na íntegra, no blog www.vilhenarockzine.blogspot.com

"Nascendo às margens..."


Nascendo às margens, às beiras, e tornando as beiras o centro do mundo - do nosso mundo. Respeitando a diversidade, mas trabalhando para que, esta diversidade, funcione como parte de um todo, de uma unidade.O principal mote de desenvolvimento deste Blogger gira em torno da promoção, desenvolvimento e sedimentação da Identidade do povo Rondoniense - configurada a partir do conceito de "Beiradeiro", tendo em vista, todo o Estado de Rondônia ser produto de um desenvolvimento à "beira" - de rios, estradas e ferrovias.O italiano Antônio Gramsci assevera que a Identidade é um dos pontos de defesa, soberania e auto-determinação de um povo. Quanto mais sedimentada esta identidade, mais resistente a dominação e interferência externa esse povo se torna.Rondônia é um Estado lembrado apenas por seus conflitos, grupos políticos criminosos, devastação do meio ambiente, chacinas nas prisões e no campo; logo, este mesmo Estado, será lembrado pela ascensão de um movimento jovem, forte, coeso,e, principalmente, consciente da importância da valorização do povo e das manifestações culturais deste lugar. Usurparam a borracha: deixaram o seringueiro; usurparam a cassiterita: expulsaram o mineradores manuais e colaboraram para a implantação das grandes mineradoras internacionais; levaram todo o ouro: deixaram a prostituição, as doenças e a miséria; mandaram plantar café: para lavar o dinheiro, o dinheiro da cassiterita de Ariquemes que era trocada por Cocaína na Bolívia. Rondônia diz não a continuidade. Rondônia diz sim a seu povo.
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