
Por: ISAAC RONALTTI
Qual o melhor nome para classificar o “não visto”, o “não ouvido”, aquilo que passou de maneira fugaz ao decorrer de mais de duas décadas?
Qual o melhor nome para classificar o “não visto”, o “não ouvido”, aquilo que passou de maneira fugaz ao decorrer de mais de duas décadas?
Assim aconteceu com grande parte da cultura local - curiosamente nestes poucos mais de 20 anos que esta terra é conhecida como Estado de Rondônia -, ainda mais, quando esta cultura se tratava de movimentos jovens que, costumeiramente, eram encarados como surto de uma juventude sem princípios, pagã, libertina e promíscua - semelhantemente como Bloom[2] classificara a juventude americana no final da década de 80.
Através dos movimentos jovens - em especial o Movimento das bandas de Rock -, Porto Velho, assim como o Estado de Rondônia, não percebeu as diversas manifestações que se processavam entre estas tribos urbanas, até porque estas estavam na condição de marginais, contudo, pouco a pouco este movimento vivenciou um processo de organização.
Grande parte destes movimentos tinham influências visíveis dos maneirismos da década de 70, bem como do Punk. Foi assim que o Rock tornou-se ferramenta de interferência sócio-politica de um bom número de jovens deste Estado.
Diferentemente dos processos de aculturação e cópia dos modismos influenciado pela mídia - na década de 80 devido à expansão da televisão e na década de 90 devido o maior acesso aos computadores e a internet -, o Rock, este ritmo estrangeiro, foi usado como amplificador das angustias, problemáticas e inseguranças da juventude rondoniense.
Esquecidos pelo tempo, bandas e músicas se somaram aos perdidos, lembrados apenas por alguns dos saudosos guerreiros que tiveram a oportunidade de presenciar, assistir e ouvir, as mais diversas apresentações de bandas nestes muitos anos.
As bandas, em sua maioria, nasceram de influências da música Punk - assim como o movimento de bandas de Rock em Brasília nos anos 80, que deu como fruto bandas como: Plebe Rude, Legião Urbana, Capital Inicial, entre outras -, outras ainda foram muito influenciadas pelo psicodelismo e o virtuosismo de bandas como The Doors e Pink Floyd: é o caso da banda Nômades.
Essas manifestações não se restringem a Porto Velho, basta observar os trabalhos de bandas como “Os Químicos” - da cidade de Ariquemes -, que em músicas como “Força Militar” tratam de criticas a obrigatoriedade do serviço militar, tema muito abordado pelos movimentos punks.
A banda Merda Seca na música “Deus = o capital”, traça um paralelo entre acumulação, usurpação monetária do povo pela igreja (sejam protestantes ou não), crítica a sociedade ocidental (cristã, puritana e capitalista), e ainda faz uma crítica incisiva a idéia de “deus” que mantemos.
“Teatro no Vinil” é uma música da banda Detroid - extinta banda portovelhense liderada pelo lendário Jony “o desordeiro”: a música trata dos conflitos entre tribos urbanas - Punks e Headbengers -, é uma narrativa de umas das lendas urbanas de Porto Velho (ou de um dos mais interessantes factóides locais): a história da Headbenger Sam, segundo as falácias locais, esta última teria manipulado punks e headbengers, inclusive promovendo a pacificação temporária entre estas tribos - conhecidas por não conviverem muito bem. O episódio termina com Sam - após ser desmoralizada entre Punks e Headbengers - incendiando seu apartamento e colocando fogo em seu próprio corpo. Sam não morreu, contudo, ninguém sabe do seu paradeiro, comenta-se que a mesma teria se mudado para o Amapá.
A banda Orbe, uma das bandas mais lembradas da juventude que freqüentava a extinta Oficina do Rock[3], transmitia em suas músicas toda a geração que foi influenciada pelo mal estar, presente na juventude dos Estados Unidos da América, evidente no final da década de 80 - identificado por Bloom, e liderado pelas bandas Grunge, que entre seus principais precursores estão bandas como Nirvana[4], Melvins e Pearl Jam.
Ainda sobre as influências do Grunge e toda acidez do Punk, a banda Rádio ao Vivo - vindo a existir inicialmente como banda Neófitos -, sintetizou na música “Mansão do Arão” uma boa quantidade de niilismo e desmazelo. A história do morador de rua Arão é a metáfora de um ataque a diversos valores de nossa sociedade: escola, status quo, acumulação, puritanismo, comodismo e indiferença. A música nasce a partir de uma situação curiosa: Arão após ser perguntado sobre onde ficava sua casa, apontou para a praça e disse: “olha ali a minha mansão”. A música ainda aborda em seu conteúdo diferenças sociais, tribos urbanas e a juventude marginalizada que, até então, tinha como principal ponto de encontro em Porto Velho, a Praça Aluízio Ferreira - conhecida popularmente como a “Praça do Half” [5].
Ainda sobre as influências do Grunge e toda acidez do Punk, a banda Rádio ao Vivo - vindo a existir inicialmente como banda Neófitos -, sintetizou na música “Mansão do Arão” uma boa quantidade de niilismo e desmazelo. A história do morador de rua Arão é a metáfora de um ataque a diversos valores de nossa sociedade: escola, status quo, acumulação, puritanismo, comodismo e indiferença. A música nasce a partir de uma situação curiosa: Arão após ser perguntado sobre onde ficava sua casa, apontou para a praça e disse: “olha ali a minha mansão”. A música ainda aborda em seu conteúdo diferenças sociais, tribos urbanas e a juventude marginalizada que, até então, tinha como principal ponto de encontro em Porto Velho, a Praça Aluízio Ferreira - conhecida popularmente como a “Praça do Half” [5].
A Coveiros é, sem dúvida alguma, uma das bandas mais conhecidas do Estado de Rondônia. A banda possui um bom número de músicas que marcaram Porto Velho. Considero “Medo e Esperança” uma das melhores músicas da banda. A música exprime uma turbulenta afronta ao ser humano acomodado, é digna de ser classificada como a síntese de uma re-volta. A música é agressiva, mas muito profunda - envolta pela guitarra mais do que pesada de Hélio, a garganta destruidora de Giovani, a bateria esquizofrênica do Del e o Baixo do Yuri-, lança uma sensação de desespero, algo próximo da sensação que qualquer um teria caso estivesse na Faixa de Gaza vestido com o uniforme do Hesbolá, e ainda, sendo obrigado a ter que segurar uma bandeira de Israel. Dá para imaginar?
Já que falamos de Israel e da Faixa de Gaza, é bom lembrar que as músicas das bandas locais, costumeiramente, se responsabilizaram por traduzir as emoções e as opiniões da juventude local a respeito de temas dos mais complexos. Foi assim com a banda DHC, na música Oriente Médio: a música expõe o ambiente de guerras vivido no inicio da década de 90, em especial, os conflitos da Guerra do Golfo e os ataques constantes a Beirute. As músicas da D.H.C já tratavam de temas super atuais como ambientalismo e críticas a proliferação da energia nuclear.
Interpretada pela DHC, a música “Porto Velho Caos” curiosamente foi composta por um grupo de amigos de Ariquemes e já destrinchava, em notas e versos, toda a acidez e contradições sociais advindas como soldo da atividade garimpeira em Porto Velho.
A banda Scrooff, sem abrir mão da melodia, conseguiu juntar em uma boa música uma ótima crítica: “Estado-Razão” mostra que é possível sim, juntar melodias a críticas sociais recheadas de argumentos punks.
Já que falamos de Israel e da Faixa de Gaza, é bom lembrar que as músicas das bandas locais, costumeiramente, se responsabilizaram por traduzir as emoções e as opiniões da juventude local a respeito de temas dos mais complexos. Foi assim com a banda DHC, na música Oriente Médio: a música expõe o ambiente de guerras vivido no inicio da década de 90, em especial, os conflitos da Guerra do Golfo e os ataques constantes a Beirute. As músicas da D.H.C já tratavam de temas super atuais como ambientalismo e críticas a proliferação da energia nuclear.
Interpretada pela DHC, a música “Porto Velho Caos” curiosamente foi composta por um grupo de amigos de Ariquemes e já destrinchava, em notas e versos, toda a acidez e contradições sociais advindas como soldo da atividade garimpeira em Porto Velho.
A banda Scrooff, sem abrir mão da melodia, conseguiu juntar em uma boa música uma ótima crítica: “Estado-Razão” mostra que é possível sim, juntar melodias a críticas sociais recheadas de argumentos punks.
Por fim, a banda vilhenense - Enmou -, na música “Vou matar cow-boy”, identifica de maneira singular as diferenças e contradições presentes num estado construído a partir de uma miscelânea de culturas: o confronto entre o urbano marginalizado - punk -, e o modismo rural configurado como o filho snobe do grande proprietário rural - no caso o cow-boy -, mostram as diferenças e os contrastes de um estado em formação, além das diferenças entre o urbano e o rural, este último sendo a corrente majoritária local.
Enfim, como negar as diversas influências do movimento rock em Rondônia, ao passo que, este movimento foi catalisador de diversas características que colaboraram para o que somos hoje? Este mesmo movimento enfrentou o fim da ditadura, quando, para promover qualquer evento, a banda Nômades era obrigada a enviar cópias das músicas para o Departamento Federal de Censura em Rondônia, para, após uma análise do teor das letras, conseguir liberação para expor suas músicas nos eventos.
A banda Nômades ainda encabeçou o “Projeto Espaço Aberto” - projeto que acontecia quinzenalmente na Praça das Três caixas d’águas ao decorrer do ano de 1987 -, conseguindo agregar em um evento 10.000 pessoas. Era a movimentação de figuras e bandas que possibilitavam as manifestações de uma cena.
O Rock, ritmo estadunidense, se perdia nas notas de diversas bandas, e estas se tornavam original ao passo que falavam de seu cotidiano, mas sem apartar das questões do mundo por aí à fora. Isso é visível seja num evento da banda Nômades na escadaria da Unir Centro, em 1987 - alguns acreditam que o primeiro evento realizado no local-, um protesto contra os diversos problemas de fornecimento de energia elétrica na cidade de Porto Velho, o que acabou por dar nome ao evento de “Faz escuro, mas eu canto”. Ou ainda, nos versos de protesto da D.H.C que, de certa forma, inseriam os jovens que ouviam a banda em debates como Guerra, Imperialismo, não-submissão e autonomia.
Versos de protesto contra uma “democracia onde o que vale é obrigar” como dizia um trecho da música “Força Militar” da banda “Os Químicos”. Os mesmos protestos vertidos em mensagens metafóricas da música “Mansão do Arão” da banda Rádio ao Vivo - versos repletos de anarquismo, repletos do “do it yourself”, ou o faça você mesmo, versos figurantes do caos que como teoria possuem como fim o mesmo lugar: um eterno retorno onde a destruição é uma constante criação.
E quem negaria que “Deus = o capital”, da banda Merda Seca, não é uma feliz análise sociológica, uma música que passeia pelo materialismo-histórico-dialético de Marx e faz ponte com a análise de Max Weber sobre o protestantismo como o cerne fundamental do espírito capitalista.
Isso é só um pouco do que construímos em mais de duas décadas de Rock em Rondônia, e muito não foi falado, não foi analisado, não foi visto nem ouvido.
Isso é só um pouco do que construímos em mais de duas décadas de Rock em Rondônia, e muito não foi falado, não foi analisado, não foi visto nem ouvido.
Construímos algo original, regional, que não é produto da aculturação, mas sim, de uma antropofagia cultural - como a de Oswald de Andrade[6] -, onde cultura é vista não como algo que vem de fora, mas que é produzido a partir da prática e análise do cotidiano em que vivemos inter-agindo, inter-ferindo.
[1] - “Recado para baby blues” é o título de uma música da banda Nômades, a primeira banda de rock a produzir música própria em Porto Velho. Escolhi esse nome para o artigo, pelo simples motivo do nome ser consoante com o objetivo principal desta publicação: a promoção e a divulgação de informações a respeito de bandas de Rock locais.
[2] BLOOM, Alan. “The Closing of the American Mind” - “O estreitamento da mentalidade Americana”: Bloom em sua publicação de 1988 alega que a cultura popular, em especial o Rock, causou atrofia do vigor e da inteligência da juventude americana. Entre outras considerações Bloom fala do declínio moral e intelectual, encara como única causa, o Rock; teme o espírito desafiador as autoridades que este ritmo implantou nos jovens a partir da década de 60. O livro é uma grande coleção de considerações preconceituosas, puritanas e autoritárias, bem ao estilo do Gentleman - as características do colonizador da “Nova Inglaterra”. Os pontos positivos estão na qualificação do Rock como movimento, e que, caracterizado como cultura popular, é ameaçador as bases das instituições intocáveis da terra: a igreja e o estado.
[3] Durante mais de 20 anos a Oficina do Rock foi o principal ponto de encontro do pessoal do Rock. Infelizmente (ou felizmente) a Oficina foi transformada em um estacionamento no início do ano de 2005.
[4] Bloom ainda foi motivo de inspiração para um dos principais clássicos do Nirvana: a música “In Bloom”.
[5] O Half foi recentemente destruído pela Prefeitura Municipal de Porto Velho por motivos de reestruturação e reforma da Praça. A Praça Aluízio Ferreira também era conhecida (ou ainda é... sei lá) como a “Maldita”.
[6] Um dos grandes nomes da Semana de Arte Moderna de 1922.
[1] - “Recado para baby blues” é o título de uma música da banda Nômades, a primeira banda de rock a produzir música própria em Porto Velho. Escolhi esse nome para o artigo, pelo simples motivo do nome ser consoante com o objetivo principal desta publicação: a promoção e a divulgação de informações a respeito de bandas de Rock locais.
[2] BLOOM, Alan. “The Closing of the American Mind” - “O estreitamento da mentalidade Americana”: Bloom em sua publicação de 1988 alega que a cultura popular, em especial o Rock, causou atrofia do vigor e da inteligência da juventude americana. Entre outras considerações Bloom fala do declínio moral e intelectual, encara como única causa, o Rock; teme o espírito desafiador as autoridades que este ritmo implantou nos jovens a partir da década de 60. O livro é uma grande coleção de considerações preconceituosas, puritanas e autoritárias, bem ao estilo do Gentleman - as características do colonizador da “Nova Inglaterra”. Os pontos positivos estão na qualificação do Rock como movimento, e que, caracterizado como cultura popular, é ameaçador as bases das instituições intocáveis da terra: a igreja e o estado.
[3] Durante mais de 20 anos a Oficina do Rock foi o principal ponto de encontro do pessoal do Rock. Infelizmente (ou felizmente) a Oficina foi transformada em um estacionamento no início do ano de 2005.
[4] Bloom ainda foi motivo de inspiração para um dos principais clássicos do Nirvana: a música “In Bloom”.
[5] O Half foi recentemente destruído pela Prefeitura Municipal de Porto Velho por motivos de reestruturação e reforma da Praça. A Praça Aluízio Ferreira também era conhecida (ou ainda é... sei lá) como a “Maldita”.
[6] Um dos grandes nomes da Semana de Arte Moderna de 1922.
3 comentários:
Finalmente a história desse rico e interessante movimento cultural começa a ser apresentada de um modo que possibilita gerar registros capazes de enriquecer a compreensão da identidade local.
Parabenizo-o por esta iniciatiava e espero, sinceramente, que os seus "amigos e inimigos" o corrijam, rebatam e ampliem as informações que você traz à público através deste espaço de comunicação.
Conforme já lhe falei, a produção da história da cena musical de Porto Velho e, porque não dizer de Rondônia, está por ser feita. E é bom que o seja por quem entende do assunto.
A nós, leigos, cabe apreciar a boa narrativa, fundamentada na informação gerada por pesquisa honesta. É um bom começo.
Marta Valéria
gostei do texto isaac muito legal, no beradeiros desse ano estaremos discutindo exatamente isso, um resgate, afinal de contas não somos essa merda toda que andam falando por ae, somos uma cena foda em vários aspectos que precisa ser lapidada, mas por pessoas honestas e que não estão a procura apenas de grana.
abração maldito
véééééééiiiio muuuuuito bom cara teu blog isso que saum iniciativas válidas para nós "beraderos" não de nascença mas de opinião...
muito bommmmmmmmmmm
não deixa de passar no meu tambem quando quizer uma contribuiçao estamos aí...
inté..
maycon rock
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