Por: Isaac Ronaltti
Até uns anos atrás, Beiradeiro era um xingamento local, se remetia a um deboche do homem pacato e humilde que mora na beira dos rios.A banda Quilomboclada gostava de definir Beiradeiros como os ribeirinhos e os “afro-indígenas”. Mas depois de muitas reflexões que fiz, confesso que as mesmas ainda incompletas, percebi que, o conceito de Beiradeiros para nós é algo muito mais denso, incutido de uma gama de significados, e o mais incrível, um dos poucos pontos que nos é comum não só em Porto Velho, mas em todo Estado de Rondônia.Nisso, construir um conceito que traduza em uma unidade a nossa diversidade, é passo fundamental para que, possamos definir e consolidar nossa identidade de portovelhenses, de rondonienses - como o Nettu mesmo falou: “cada cidade de Rondônia parece um universo paralelo”, haja visto que, como nos afirma Gramsci, um povo que não tem identidade, algo que os una, que os torne comum, é um povo sem memória, e um povo sem memória está mais suscetível a vir a ser dominado. Foi analisando nossa história, os ciclos econômicos que viveram nossa terra que, percebi um ponto em comum que nos une: nós: rondonienses e rondonianos somos todos Beiradeiros. Todos nós estamos à beira, nos desenvolvemos a beira, somos “marginais”, nascemos à beira dos rios, da ferrovia, da BR-364, portanto somos Beiradeiros. Assim, também são nossas cidades, principalmente Porto Velho que nascera a beira do Madeira, assim como as diversas cidades que se desenvolveram a beira da BR-364. Desenvolvemos-nos a beira, assim como fomos colocados à beira ao decorrer dos diversos ciclos econômicos. Para melhor ilustrar, transcreverei um trecho, do capítulo 21, do livro que estou escrevendo sobre a Cena Rock em Porto Velho, só atentando que, embora o livro trate de um apenas da representação local de um estilo musical, a Cultura Beiradeira não se resume a um estilo, a um tipo de música, é muito mais que isso:
“Beiradeiro é todo aquele que está a margem. Diria simplesmente que, o conceito de beiradeiros inclui todos os excluídos,sejam eles excluídos pelos ciclos econômicos, pela classe social, por etnia, cor e credo.O diferencial do beiradeiro é que ele não luta para incluir-se na lógica do dominante, ele volta-se para o que é seu, e passa a dar valor singular as suas peculiaridades, percebe finalmente, que ele - o Beiradeiro -; não precisa entrar nas correntes das águas dos outros, tendo que assumir a posição de remar contra ou a favor das marolas. Percebe, tão simplesmente que, pode conduzir o seu caminho, valorizando a margem, e decidindo para onde andar.Os Beiradeiros possuem os pés fincados na terra,e não entram nas águas simplesmente porque alguém diz que assim deve-se fazer,que assim caminha o progresso e o desenvolvimento.O Beiradeiro é, decididamente,e a afirmativa do alternativo”.Em termos mais específicos, a expressão cultural beiradeira é marginal:
“...pois sempre esteve a margem,sempre fomos o excêntrico,na maioria das vezes pouco valorizada, até pelo público local,que devido uma tradição típica herdada da colonização,tem o costume de valorizar e entender que se deva dar valor e crédito somente aquilo que vem dos grandes centros”.Este componente ideológico - a criação da idéia do Beiradeiros -, o Projeto não pode se desvincular ou esquecer, sob pena de tornar-se um Projeto vazio, ou pior, transformar-se em uma mera produtora de eventos.Por isso que acho reducionista demais tratar o Beiradeiro de Rondônia apenas como o afro-indígena, ou apenas o ribeirinho, até porque se tratássemos apenas dos negros - e não me venham com a aquela baboseira de chamar os negros de descendentes de escravos, afinal, nunca existiu um país chamado “Escravolândia”-; num estado como Rondônia já teríamos um bom número de contradições, haja vista que, o negro encontrado em Porto Velho é em sua maioria de origem caribenha, trazido para trabalhar na construção da EFMM - naturalmente de raiz africana, capturado e usado como mão-de-obra escrava nas colônias caribenhas, em especial, as colônias inglesas: que ainda são responsáveis por um traço singular do negro portovelhense - o protestantismo, um bom exemplo do que estou falando são os Shockness e os Johnson’s; Muito diferente do negro encontrado no Guaporé, que é remanescente quilombola, religiosamente, ainda está ligado fortemente aos cultos afros, mas tem traços fortes também do catolicismo, esse sincretismo religioso é responsável por uma das mais ricas manifestações culturais do baixo - Guaporé - a Festa do Divino; Como podemos ver, e é fato, há em Rondônia uma diversidade fora do comum, uma diversidade que, creio eu, pode ser resumida em uma unidade - o Beiradeiro.O povo acreano, é conhecido atualmente por sua identidade fortemente sedimentada. Mas isso não se construiu de uma hora para outra, é fruto de um trabalho político-ideológico de mais de 30 anos (não cabe no momento avaliar seus pontos positivos e negativos), um trabalho que envolveu os CEB’s - estruturado a partir da versão católica para o marxismo: a Teologia da Libertação; um trabalho que envolveu os sindicatos rurais, mas principalmente, a partir de um processo de apoderamento popular, onde fora valorizado a figura dos Povos da Floresta como ponto de unidade dentro da diversidade, o que seria futuramente sintetizado na idéia-conceito do “Florestão” - uma palavra que singularmente descreve o índio, o seringueiro, enfim, o povo acreano. Se bem lembrarmos, Gramsci nos advertia a respeito da importância da identidade como forma de defesa em relação ao dominador. Pois bem, da mesma forma, no Acre, a frase de Bernard Shaw usada na epígrafe é perfeitamente anexa à realidade vivida para a construção de um conceito que expresse a identidade de um povo, seria no caso “criar as circunstâncias que precisamos” para nos auto-afirmarmos. A partir de meados da década de 60, a questão fundiária, foi, sem dúvida, um dos piores problemas enfrentados pelo Estado recém criado do Acre: isso devido a ter se classificado o seringueiro como camponês - aqui percebemos a importância dos conceitos-, o fato é que a partir do início da regularização das terras embasadas no “Estatuto da Terra” - criado pela Lei 4.504, de 30-11-1964: decididamente, uma obra do regime militar que, de forma tirana, assumiu o poder no mesmo ano, e visava de certa forma “salvaguardar” a nação de possíveis distúrbios, haja vista que, em 1959, Cuba havia passado por um processo revolucionário popular, e acontecia de forma semelhante em toda América, um intenso movimento de Reforma Agrária (México, Bolívia), até como forma de acalmar as organizações camponesas que, ao momento, se articulavam a todo vapor - enfim, o Estatuto da Terra, desenvolvido visivelmente sem atentar para as peculiaridades do povo acreano, cometeu o equívoco de classificar o seringueiro como um camponês, como um agricultor, e como determinava o estatuto: o camponês teria direito apenas ao espaço de terra que era composto pela sua casa e sua lavoura, sendo delimitado um espaço de 90 hectares para cada um; o fato é que o seringueiro não se encaixava dentro do conceito de camponês, haja vista que, a manutenção de sua vida não estava no pequeno roçado que mantinha, e sim, nos varadouros de onde se tirava o leite da seringa, que naturalmente extrapolava a quantidade de hectares prescrita no Estatuto da Terra, dado que as seringueiras estão dispersas na mata. Nisso, o conceito de camponês, era altamente prejudicial para o seringueiro, pois sua atividade como agricultor poderia no máximo ser considerada uma atividade complementar, acessória, um proto-campesinato. A partir dos diversos embates e lutas políticas, o povo acreano percebeu que tanto para enfrentar problemas como anteriormente relatado, ou mesmo, para enfrentar os “paulistas” - pecuaristas que invadiram a região, derrubando matas e expulsando seringueiros de suas colocações na década de 70 -, precisar-se-ia fortificar os traços de identidades do seu povo.Semelhantemente aos acreanos, nós, rondonienses e rondonianos, por vivermos em um Estado que sempre fora usurpado, desvalorizado, lembrado apenas pelas diversas chacinas que mancham nosso chão de sangue, precisamos criar laços de unidade, fortificar e desenvolver nossos pontos em comum, desenvolver nossa identidade, até como forma de defesa, nisso, a idéia do Beiradeiros vem muito à calhar.Rondônia não é um novo nordeste por ter um grande número de nordestino compondo sua população. O interior de Rondônia também não pode ser encarado como um novo Paraná, ou um pedaço do Rio Grande do Sul, afinal, foi esta terra que alimentou, sem queixar-se, até os ingratos.Salientei alguns dos pontos básicos que configuram a idéia de um Projeto que, objetiva-se cultural, e que, ideologicamente tem por meta a promoção das manifestações culturais locais, as manifestações Beiradeiras.
“Beiradeiro é todo aquele que está a margem. Diria simplesmente que, o conceito de beiradeiros inclui todos os excluídos,sejam eles excluídos pelos ciclos econômicos, pela classe social, por etnia, cor e credo.O diferencial do beiradeiro é que ele não luta para incluir-se na lógica do dominante, ele volta-se para o que é seu, e passa a dar valor singular as suas peculiaridades, percebe finalmente, que ele - o Beiradeiro -; não precisa entrar nas correntes das águas dos outros, tendo que assumir a posição de remar contra ou a favor das marolas. Percebe, tão simplesmente que, pode conduzir o seu caminho, valorizando a margem, e decidindo para onde andar.Os Beiradeiros possuem os pés fincados na terra,e não entram nas águas simplesmente porque alguém diz que assim deve-se fazer,que assim caminha o progresso e o desenvolvimento.O Beiradeiro é, decididamente,e a afirmativa do alternativo”.Em termos mais específicos, a expressão cultural beiradeira é marginal:
“...pois sempre esteve a margem,sempre fomos o excêntrico,na maioria das vezes pouco valorizada, até pelo público local,que devido uma tradição típica herdada da colonização,tem o costume de valorizar e entender que se deva dar valor e crédito somente aquilo que vem dos grandes centros”.Este componente ideológico - a criação da idéia do Beiradeiros -, o Projeto não pode se desvincular ou esquecer, sob pena de tornar-se um Projeto vazio, ou pior, transformar-se em uma mera produtora de eventos.Por isso que acho reducionista demais tratar o Beiradeiro de Rondônia apenas como o afro-indígena, ou apenas o ribeirinho, até porque se tratássemos apenas dos negros - e não me venham com a aquela baboseira de chamar os negros de descendentes de escravos, afinal, nunca existiu um país chamado “Escravolândia”-; num estado como Rondônia já teríamos um bom número de contradições, haja vista que, o negro encontrado em Porto Velho é em sua maioria de origem caribenha, trazido para trabalhar na construção da EFMM - naturalmente de raiz africana, capturado e usado como mão-de-obra escrava nas colônias caribenhas, em especial, as colônias inglesas: que ainda são responsáveis por um traço singular do negro portovelhense - o protestantismo, um bom exemplo do que estou falando são os Shockness e os Johnson’s; Muito diferente do negro encontrado no Guaporé, que é remanescente quilombola, religiosamente, ainda está ligado fortemente aos cultos afros, mas tem traços fortes também do catolicismo, esse sincretismo religioso é responsável por uma das mais ricas manifestações culturais do baixo - Guaporé - a Festa do Divino; Como podemos ver, e é fato, há em Rondônia uma diversidade fora do comum, uma diversidade que, creio eu, pode ser resumida em uma unidade - o Beiradeiro.O povo acreano, é conhecido atualmente por sua identidade fortemente sedimentada. Mas isso não se construiu de uma hora para outra, é fruto de um trabalho político-ideológico de mais de 30 anos (não cabe no momento avaliar seus pontos positivos e negativos), um trabalho que envolveu os CEB’s - estruturado a partir da versão católica para o marxismo: a Teologia da Libertação; um trabalho que envolveu os sindicatos rurais, mas principalmente, a partir de um processo de apoderamento popular, onde fora valorizado a figura dos Povos da Floresta como ponto de unidade dentro da diversidade, o que seria futuramente sintetizado na idéia-conceito do “Florestão” - uma palavra que singularmente descreve o índio, o seringueiro, enfim, o povo acreano. Se bem lembrarmos, Gramsci nos advertia a respeito da importância da identidade como forma de defesa em relação ao dominador. Pois bem, da mesma forma, no Acre, a frase de Bernard Shaw usada na epígrafe é perfeitamente anexa à realidade vivida para a construção de um conceito que expresse a identidade de um povo, seria no caso “criar as circunstâncias que precisamos” para nos auto-afirmarmos. A partir de meados da década de 60, a questão fundiária, foi, sem dúvida, um dos piores problemas enfrentados pelo Estado recém criado do Acre: isso devido a ter se classificado o seringueiro como camponês - aqui percebemos a importância dos conceitos-, o fato é que a partir do início da regularização das terras embasadas no “Estatuto da Terra” - criado pela Lei 4.504, de 30-11-1964: decididamente, uma obra do regime militar que, de forma tirana, assumiu o poder no mesmo ano, e visava de certa forma “salvaguardar” a nação de possíveis distúrbios, haja vista que, em 1959, Cuba havia passado por um processo revolucionário popular, e acontecia de forma semelhante em toda América, um intenso movimento de Reforma Agrária (México, Bolívia), até como forma de acalmar as organizações camponesas que, ao momento, se articulavam a todo vapor - enfim, o Estatuto da Terra, desenvolvido visivelmente sem atentar para as peculiaridades do povo acreano, cometeu o equívoco de classificar o seringueiro como um camponês, como um agricultor, e como determinava o estatuto: o camponês teria direito apenas ao espaço de terra que era composto pela sua casa e sua lavoura, sendo delimitado um espaço de 90 hectares para cada um; o fato é que o seringueiro não se encaixava dentro do conceito de camponês, haja vista que, a manutenção de sua vida não estava no pequeno roçado que mantinha, e sim, nos varadouros de onde se tirava o leite da seringa, que naturalmente extrapolava a quantidade de hectares prescrita no Estatuto da Terra, dado que as seringueiras estão dispersas na mata. Nisso, o conceito de camponês, era altamente prejudicial para o seringueiro, pois sua atividade como agricultor poderia no máximo ser considerada uma atividade complementar, acessória, um proto-campesinato. A partir dos diversos embates e lutas políticas, o povo acreano percebeu que tanto para enfrentar problemas como anteriormente relatado, ou mesmo, para enfrentar os “paulistas” - pecuaristas que invadiram a região, derrubando matas e expulsando seringueiros de suas colocações na década de 70 -, precisar-se-ia fortificar os traços de identidades do seu povo.Semelhantemente aos acreanos, nós, rondonienses e rondonianos, por vivermos em um Estado que sempre fora usurpado, desvalorizado, lembrado apenas pelas diversas chacinas que mancham nosso chão de sangue, precisamos criar laços de unidade, fortificar e desenvolver nossos pontos em comum, desenvolver nossa identidade, até como forma de defesa, nisso, a idéia do Beiradeiros vem muito à calhar.Rondônia não é um novo nordeste por ter um grande número de nordestino compondo sua população. O interior de Rondônia também não pode ser encarado como um novo Paraná, ou um pedaço do Rio Grande do Sul, afinal, foi esta terra que alimentou, sem queixar-se, até os ingratos.Salientei alguns dos pontos básicos que configuram a idéia de um Projeto que, objetiva-se cultural, e que, ideologicamente tem por meta a promoção das manifestações culturais locais, as manifestações Beiradeiras.
Trecho do artigo:
“BEIRADEIROS: CONSIDERAÇÕES A RESPEITO DE UM FESTIVAL QUE SE TORNOU PROJETO E, DE UM PROJETO QUE AINDA SE LIMITA A UM FESTIVAL”.
Este artigo pode ser encontrado, na íntegra, no blog www.vilhenarockzine.blogspot.com
0 comentários:
Postar um comentário